Quem já dormiu debaixo de lona sabe que símbolo não é enfeite.

Na ocupação, a bandeira vermelha que sobe na entrada da área não está ali para decorar. Ela avisa que aquele chão tem organização, tem assembleia, tem gente que não vai sair sem luta. O símbolo chega antes da conversa. Ele diz quem somos antes que a gente abra a boca: para o vizinho, para o oficial de justiça, para a imprensa e para o próprio povo que ainda não se organizou. O vermelho é o que a gente pinta na madeira do barraco, o que abre a marcha, o que cobre o caixão do companheiro morto no despejo. A estrela, o punho cerrado, a foice e o martelo, a bandeira erguida na entrada do acampamento: nada disso é ornamento. É documento de identidade de uma classe.

É por isso que a militância do campo popular estranha o que começa a circular por aí. Basta abrir o Instagram, receber um santinho na mão ou olhar para os primeiros materiais para perceber que alguma coisa está fora do lugar. Azul-claro, verde-água, cinza chumbo, tipografia limpa, foto de terno bem cortado e um sorriso ensaiado que poderia estar vendendo plano de saúde. Falta uma coisa só. Falta a estrela. Falta o vermelho. Falta qualquer símbolo que denuncie que aquilo ali nasceu do mesmo chão em que a gente pisa: das greves, das comunidades eclesiais de base, dos sindicatos, das ocupações e dos acampamentos.

Alguém dirá que isso é discussão de detalhe, coisa de designer, preciosismo de militante saudosista. Não é. Símbolo é síntese de história. A estrela não foi desenhada em reunião de agência, ela foi construída na luta, e é por isso que o povo a reconhece antes mesmo de ler o nome do candidato. O vermelho não é uma escolha cromática entre outras: é a cor que carrega a memória de quem apanhou, de quem foi preso, de quem ocupou fábrica e latifúndio, de quem levantou barraco no escuro para que hoje existisse mandato e cadeira para disputar. É a cor de todos os que tombaram antes de nós, no mundo inteiro, para que trabalhador tivesse jornada, salário, terra e teto. Quando se apaga o símbolo, não se apaga uma cor. Apaga-se uma origem, apaga-se um endereço, apaga-se um compromisso.

Nem o pragmatismo salva

Essa fuga da identidade poderia até ter uma justificativa cínica, ainda que desprezível, se estivéssemos num território hostil, num lugar onde carregar a estrela custasse voto, onde o povo virasse as costas ao vermelho. Mas não é o caso. Estamos falando de um lugar onde o campo popular nunca perdeu uma eleição presidencial. Nunca. Onde o povo, eleição após eleição, olhou para a urna e escolheu exatamente o projeto, o programa e a cor da qual agora se tem vergonha no material impresso.

Ou seja: nem sequer o argumento do “pragmatismo eleitoral” se sustenta. O pragmatismo mandaria abraçar com força o símbolo que ganha. Aqui, o vermelho é marca vencedora. É a cor associada ao aumento real do salário mínimo, ao acesso à universidade, à casa própria, à luz elétrica, à aposentadoria que chegou, ao prato de comida que voltou para a mesa. O povo sabe disso, e sabe melhor do que qualquer pesquisa qualitativa encomendada.

Esconder o símbolo justamente onde o símbolo ganha não é estratégia. É desonrar quem construiu essas vitórias: o povo que votou vermelho em tempos muito mais difíceis, quando dizer de que lado se estava custava emprego, custava amizade e, às vezes, custava bem mais do que isso. Pede-se a esse povo uma lealdade que não se devolve.

A estética é só o sintoma

E aqui está o ponto que de fato interessa a quem constrói movimento: o mais grave não é a estética. É o que a estética revela sobre o método. Onde antes a campanha era construída junto com o sindicato, com o movimento de moradia, com a pastoral, com a juventude da periferia, hoje existe briefing, cronograma de postagem e reunião fechada. A militância, que era sujeito, virou “público-alvo”. O movimento popular virou convidado de última hora, chamado para a foto quando o palanque já está montado. E nós não somos figuração. Quando a ocupação é lembrada só no dia do ato, mas não na hora de decidir o que a campanha vai dizer sobre moradia, sobre reforma urbana, sobre despejo, sobre saneamento e sobre direito à cidade, o que se está pedindo ao movimento não é aliança. É plateia. E plateia se dispersa quando as luzes se apagam.

Vale dizer de quem é a cartilha. São as mesmas agências, os mesmos marqueteiros e os mesmos “estrategistas” que passaram décadas vendendo campanha para a direita, que trabalharam alegremente para quem sempre nos combateu e que agora chegam ensinando que o vermelho “afasta”, que a estrela “polariza”, que socialismo “assusta” e que é preciso “modernizar a comunicação”. Trocaram a construção coletiva pela consultoria e depois se espantam quando ninguém aparece para colar cartaz de madrugada. Não é sabotagem: é que ninguém arrisca a noite, o sono e o pouco dinheiro do transporte por uma campanha que não ajudou a construir, que não o reconhece como sujeito e que, no próprio material gráfico, tem vergonha de dizer de onde veio.

Isso não é problema de um partido só. É um problema do campo popular inteiro, e cabe a nós, dos movimentos, nomeá-lo com clareza, porque somos os primeiros a pagar a conta. O roteiro que já conhecemos O que vem depois a gente já sabe de cor. Ao primeiro sinal de fracasso, ao primeiro resultado abaixo do esperado, serão exatamente esses mesmos os primeiros a subir na tribuna e nas redes para dizer, com a voz embargada, que “é preciso voltar às bases”, que “o campo popular se distanciou do povo”, que “faltou militância”. Serão os mesmos que fugiram do vermelho, que esconderam a estrela, que não chamaram o movimento para construir nada, que trataram a base como estorvo e a mística como constrangimento. Vão culpar a militância que não convocaram e a base da qual fugiram no próprio material gráfico. É a hipocrisia perfeita: derrubam a ponte e depois reclamam que ninguém atravessou.

A unidade que não pediu desculpas

Felizmente, o vento não sopra só para esse lado, e a prova disso apareceu justamente nas pré-campanhas deste ano. Enquanto uns lavavam a cor dos seus santinhos, parlamentares e pré-candidatos de PSOL e PT se juntaram em julho para lançar uma articulação nacional que não apenas não esconde o vermelho: colocou no próprio nome exatamente aquilo que o marketing manda apagar. Batizaram-na de Bancada da Esquerda Radical. O manifesto de lançamento não fala em “novas formas de fazer política” nem em “escuta ativa”: fala em socialismo, em soberania, em organizar as lutas, em ganhar o povo para um projeto, e diz sem meias palavras que não se derrota a extrema direita com recuo, conciliação ou subordinação. Assumiram a palavra que os adversários usam como xingamento e a devolveram como bandeira.

Não se trata de assinar embaixo de cada vírgula, nem de fingir que as diferenças no campo popular não existem. Elas existem, são reais, e as disputas eleitorais seguem cada uma no seu lugar. Trata-se de constatar o óbvio: enquanto o consultor jura que a estrela “polariza” e que o vermelho “afasta”, quem cresce e mobiliza é exatamente quem não pede desculpas por nenhum dos dois. Essa unidade não nasceu de briefing nem de reunião de criação. Nasceu do que sempre gerou unidade entre nós: programa, símbolo e disposição de luta. Foi construída para fora do gabinete, com militante, com movimento, com quem está na rua.

É esse o caminho, e ele não tem nada de nostalgia. Quem tem vergonha do próprio símbolo já avisou ao eleitor que não acredita naquilo que representa. E avisou também ao movimento que, depois de eleito, não será na ocupação que vai buscar conselho. A disputa, portanto, não é sobre cor. É sobre projeto e sobre método. Ou construímos campanhas enraizadas no campo popular, feitas com os movimentos e não apesar deles, ou seguiremos pagando profissionais da direita para nos ensinar a ter vergonha da nossa própria história, num lugar onde essa história nunca precisou de disfarce para vencer.

A estrela não é enfeite. É endereço. E quem apaga o endereço não deveria depois se queixar de que o povo não sabe mais onde encontrá-lo.