A Campanha da Fraternidade 2026 e o Desafio de Radicalizar o Debate sobre a Reforma Urbana
Companheiros e companheiras de luta, vivemos um período em que a contradição entre a mercadoria e a vida se torna cada vez mais insuportável. Nas nossas ocupações, nas periferias e nas favelas, sentimos o peso do aluguel e a violência dos despejos como marcas de um sistema que prioriza o lucro sobre a dignidade. É nesse cenário de resistência que recebemos o anúncio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para a Campanha da Fraternidade de 2026, com o tema “Moradia e Fraternidade”. Para o Movimento Nacional de Luta pela Moradia, que pauta sua prática no socialismo e na função social da propriedade, esse não é apenas um tema para reflexão religiosa, mas um fato político de primeira grandeza que precisamos disputar no território das ideias e das ações.
Ao afirmar que a casa é o “lugar da fraternidade”, o manifesto da Igreja acerta no diagnóstico ético, mas nos cabe, como militantes, aprofundar essa leitura sob a ótica da luta de classes. Afinal, não existe fraternidade plena sob a ditadura da especulação imobiliária. A escolha deste tema abre as portas para discutirmos o que o capital tenta esconder: o déficit habitacional no Brasil não é fruto da falta de materiais de construção, mas do excesso de acumulação. Enquanto prédios vazios servirem apenas para engordar o patrimônio de bancos, a fraternidade proposta será interrompida pela barreira do capital. Por isso, nossa tarefa é levar o debate para além das quatro paredes, conectando a moradia ao Direito à Cidade. Morar dignamente exige saneamento, transporte, lazer e proximidade com o trabalho, combatendo a segregação que empurra a classe trabalhadora para periferias desassistidas. Nossa tarefa nesta Campanha da Fraternidade 2026 será tensionar o debate para que a Igreja e a sociedade não discutam apenas “casinhas”, mas sim a reforma urbana radical. Precisamos de cidades pensadas para as pessoas, e não para o fluxo de valorização dos terrenos.
A Doutrina Social da Igreja e o nosso programa convergem em um ponto fundamental: a propriedade privada não é um direito absoluto. Ela deve cumprir uma função social.
“A terra é de quem nela trabalha, e a casa é de quem nela mora.”
Se um imóvel não serve para morar, para produzir ou para criar cultura, ele não tem razão de existir. Deve ser desapropriado para fins de interesse social. A Campanha nos oferece, portanto, um palanque estratégico para exigir que o Estado cumpra a Constituição e as leis de Reforma Urbana.
É importante ressaltar que o Movimento Nacional de Luta pela Moradia não é avesso à religiosidade do povo; reconhecemos na nas Comunidades Eclesiais de Base sementes históricas da organização popular no Brasil. Não combatemos a fé, mas sim a injustiça, compreendendo que para muitos de nossos militantes, a ocupação de um terreno é a realização prática de uma ética superior de partilha.
Essa aproximação, contudo, ocorre sob o absoluto respeito ao Estado Laico. Entendemos que o Estado deve garantir direitos fundamentais a todos, independentemente de crença, e é justamente por isso que a voz institucional da Igreja se torna um reforço na cobrança por políticas públicas. Nossa aliança com setores progressistas é política e programática: onde houver luta contra o despejo, ali estará o MNLM, seja a militância movida pela consciência de classe, pela fé, ou por ambas. Nossa posição política deve ser de unidade na luta e independência de classe. Saudamos a iniciativa da CNBB, mas sabemos que a mudança real não virá apenas das orações, mas da organização popular, lembrando que a moradia popular é o terreno onde a fraternidade e a justiça social se tornam uma única luta.
Concluímos convocando a base para transformar a Campanha da Fraternidade de 2026 em um verdadeiro campo de pressão popular. Precisamos transformar as paróquias e comunidades em centros de debate sobre o Plano Diretor, a Regularização Fundiária, e o orçamento público. Que a indignação contra a falta de teto se converta em organização política, pois a mudança real não virá apenas da oração, mas da ocupação organizada e da consciência de que a terra é de quem nela vive e trabalha. Precisamos denunciar a criminalização dos movimentos de luta pela moradia, lembrando que Jesus também foi um sem-teto que questionou os poderosos.
A Campanha da Fraternidade de 2026 será um campo de batalha ideológico. De um lado, os que querem transformar o tema em caridade assistencialista. De outro, nós, que queremos transformá-lo em luta por direitos e poder popular.
##Pela Reforma Urbana, pelo Socialismo e pela Vida: Moradia Já!##
Leia o Manifesto em Defesa da Moradia Popular apresentado na Abertura da Campanha de Fraternidade no 2026 no dia 22/02/2026 aqui:
https://www.instagram.com/p/DVE6MC4lDDe/?igsh=ZWpxMG84NXM0bXVq