O ano de 2025 na Espanha foi marcado no âmbito dos debates da questão urbana e econômicos por chegar ao ápice de uma profunda crise de moradia que assola o país há anos.

Manifestações contra a crise de moradia em Madrid

A gota que fez transbordar a taça foi o crescente número de imóveis disponibilizados para o aluguel turístico, realizados principalmente por meio dos aplicativos Airbnb e Booking.com.

Isso significa que os imóveis anteriormente disponibilizados para alugueis residenciais comuns passaram a ser alugados para alugueis turísticos, de contratações mais curtas e mais lucrativas para os proprietários. Esse deslocamento levou a um processo inflacionário no preço dos alugueis residenciais comuns.

O governo espanhol e os governos locais intervieram no mercado imobiliário para suspender diversas licenças para alugueis turísticos com o objetivo diminuir o preço dos alugueis. Alguns governantes chegaram a cancelar licenças até o ano de 2030, como foi o caso de Barcelona.

Nesse contexto, de acordo com a Bloomberg, houve uma queda também na oferta de imóveis para venda na casa de 20% no segundo trimestre de 2025. Paralelamente o preço dos imóveis em Madrid aumentou em 25%, alcançando o maior nível da história.

Crise habitacional na Espanha

Os números da crise

Segundo dados divulgados pela DW e levantado pelo Sindicato dos Inquilinos, estimasse que na Espanha existam 4 milhões de imóveis vazios e outros 400 mil voltados para o mercado de alugueis por temporada. Também se mensura que existem 2,5 milhões de moradias que não são usados de maneira continua, apenas de maneira esporádica, sendo a segunda ou terceira residência do proprietário.

Esses números revelam a dimensão da especulação imobiliária no país, onde milhares de imóveis permanecem vazios enquanto grande parte da população enfrenta dificuldades crescentes para acessar moradia digna.

Medidas governamentais insuficientes

O governo social-democrata espanhol tomou também medidas no âmbito da produção de novas unidades habitacionais, com investimento de 1,3 bilhões de euros ao longo de 10 anos. Esse investimento é irrisório perto da gravidade da situação.

As medidas adotadas pelo governo são claramente insuficientes para enfrentar a magnitude da crise. O investimento proposto representa uma quantia simbólica diante do déficit habitacional e da especulação que domina o mercado imobiliário espanhol.

A lógica do capital

Os capitalistas e seus governantes são incapazes de resolver a situação de crise, afinal, a crise para eles faz parte do processo de busca de cada vez mais lucros. Por isso lançam mão de medidas meramente paliativas ou pirotécnicas, que não produzem resultados concretos para a população e que visam apenas esfriar a situação para que os trabalhadores não se insurjam contra as condições degradantes de sobrevivência a que estão submetidos.

A lógica capitalista transforma a moradia - um direito fundamental - em mercadoria, em ativo financeiro para especulação. Os aluguéis turísticos representam apenas a face mais visível desse processo, onde o direito à moradia é submetido à lógica do lucro máximo.

Os trabalhadores devem eles próprios se organizarem para combater a especulação imobiliária, não se deixando levar pelos truques dos capitalistas que tem o objetivo de enganar os trabalhadores e perpetuar sua miséria.

A experiência espanhola demonstra como as políticas neoliberais no campo da habitação levam a crises profundas que afetam diretamente a vida da classe trabalhadora. A especulação imobiliária, incentivada por plataformas digitais e pela financeirização da moradia, cria um cenário onde o direito fundamental à habitação é negado à maioria da população.

A organização dos inquilinos e movimentos populares pela moradia na Espanha representa uma importante resistência contra essa lógica perversa, apontando para a necessidade de políticas públicas que garantam a moradia como direito social e não como mercadoria.


Publicado pela Redação