A extrema direita brasileira tenta, mais uma vez, se apropriar de símbolos históricos da luta popular para encenar uma farsa política. A chamada “Caminhada pela Liberdade”, organizada por figuras do bolsonarismo e do neopentecostalismo evangélico, com Nikolas Ferreira como seu principal expoente, é a expressão mais patética dessa tentativa.

A chamada “Caminhada pela Liberdade” da extrema direita

A marcha parte de Paracatu, última cidade de Minas Gerais antes da divisa com Goiás, localizada a apenas 260 quilômetros de Brasília. Trata-se de um percurso curto, estrategicamente escolhido, ainda assim acompanhado de uma ampla estrutura financeira: carros de apoio, equipes de comunicação, churrascos durante as pausas e hospedagem em hotéis.

Mesmo com todo esse conforto, figuras centrais dessa extrema direita, como o próprio Nikolas Ferreira e Fernando Holiday, aparecem publicamente andando de muletas ou em cadeiras de rodas, reclamando de dores e afirmando não aguentar mais caminhar após percorrerem 100 ou 150 quilômetros a pé.

Comparação com as marchas históricas

Essa cena seria apenas risível se não fosse politicamente reveladora. As distâncias percorridas por essa “marcha” são irrisórias quando comparadas às grandes caminhadas protagonizadas pela classe trabalhadora e pelos movimentos populares ao longo da história brasileira.

Nos anos 1990, após o Massacre de Eldorado do Carajás, milhares de trabalhadores rurais organizados pelo MST caminharam durante dois meses, saindo de diferentes estados como São Paulo, Minas Gerais e Rondônia, percorrendo milhares de quilômetros até Brasília. Sem estrutura, enfrentando fome, sol, chuva e repressão policial, marchavam por uma causa justa: reforma agrária, emprego, justiça social e o direito à vida.

Antes disso, entre 1924 e 1927, a história brasileira foi marcada pela Coluna Prestes. Liderada por Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, essa foi a maior marcha militar da história da humanidade: 25 mil quilômetros percorridos a pé, atravessando 11 estados brasileiros, enfrentando o regime oligárquico da Primeira República e o governo autoritário de Arthur Bernardes.

Os objetivos reais da marcha

Essas marchas — e tantas outras protagonizadas por movimentos progressistas e de esquerda — nada têm em comum com a chamada “Marcha da Liberdade” da extrema direita fascista brasileira. As marchas populares reivindicavam erradicação da fome, pleno emprego, justiça social, dignidade para os trabalhadores e para os mais pobres.

A marcha bolsonarista reivindica algo muito diferente: anistia para Jair Bolsonaro, seus generais e seus cúmplices na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2022.

Essa tentativa de golpe não foi um ato isolado ou espontâneo. Havia planos concretos para derrubar a democracia liberal brasileira e assassinar o presidente eleito Lula, o vice-presidente e um ministro do Supremo Tribunal Federal, então presidente do TSE. O objetivo era restaurar uma ditadura militar sanguinária nos moldes de 1964.

Cortina de fumaça para a corrupção

A “Caminhada pela Liberdade” tenta interromper esse processo histórico. E não apenas isso. Ela também funciona como uma cortina de fumaça para abafar um dos maiores escândalos de corrupção da história do país em valores nominais: o caso do Banco Master, que desviou cerca de 12 bilhões de reais dos cofres públicos.

As ligações entre esse escândalo, a extrema direita e setores do neopentecostalismo são evidentes. Daniel Vorcaro, dono do banco, mantinha contato direto com Nikolas Ferreira. Fabiano Zettel, pastor da Igreja Batista da Lagoinha e cunhado de Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal em janeiro de 2026 ao tentar fugir para Dubai.

Assim, essa marcha não passa de teatro. Um espetáculo que finge lutar pela “liberdade” de uma base manipulada — a mesma que participou da depredação da Praça dos Três Poderes em janeiro de 2022 — enquanto tenta livrar da prisão os responsáveis por articular um golpe de Estado e, ao mesmo tempo, esconder a participação de seus aliados em um gigantesco esquema de corrupção.

Conclusão

Há ainda um elemento simbólico que escancara a decadência moral da extrema direita. Essas figuras se apresentam como defensores do masculinismo, do patriarcado, do “homem forte”, líder da família, protetor e poderoso. Na prática, mostram-se frágeis, vitimistas e incapazes de caminhar míseros 260 quilômetros, mesmo com toda a estrutura disponível.

Em contraste, trabalhadores rurais, indígenas, mulheres e militantes da esquerda brasileira enfrentaram — e seguem enfrentando — o aparato repressivo do Estado, o latifúndio sanguinário, milícias urbanas e jagunços no campo. Mesmo nas condições mais adversas, não abaixam a cabeça, não desistem e seguem organizando o povo oprimido contra seus opressores.

Essa comparação não é apenas física; é histórica e moral. A direita brasileira, quando confrontada com a realidade, revela sua hipocrisia e covardia. Não constrói nada, não produz futuro, não organiza o povo. Vive de espetáculo, mentira e medo. Como todos os movimentos reacionários ao longo da história, seu destino é o mesmo: a latrina da história.