Um caminhão-bomba destruiu a residência do ministro da Defesa, Sadio Camara, que morreu ao lado da esposa e dois netos. Outro veículo foi interceptado antes de alcançar o presidente Assimi Goïta. Em Kidal, as forças russas do Africa Corps negociaram a retirada e entregaram a cidade. Desde então, Bamako está sitiada, sem combustível e sem alimentos.
A pergunta que o Ocidente não quer responder é simples: quem lucra com esse caos?
Durante décadas a França se vendeu como fiadora da estabilidade africana. A Operação Barkhane foi apresentada como uma cruzada antiterrorista. Mas foi a mesma França que bombardeou a Líbia em 2011, derrubou Gaddafi e despejou arsenais no deserto. Nicolas Sarkozy prometeu aos rebeldes líbios, segundo a Reuters, que “nós os ajudaremos”. Dali saíram as armas da rebelião tuaregue de 2012 e o vácuo que permitiu ao JNIM se enraizar no Mali. O imperialismo fabrica o terrorista e depois posa de salvador.
Em agosto de 2022, o chanceler maliano Abdoulaye Diop enviou carta ao Conselho de Segurança da ONU listando mais de cinquenta violações do espaço aéreo por aviões franceses. A TV5Monde teve acesso ao documento, que acusava a França de coletar informações para grupos terroristas e lançar armas no território maliano. Paris negou, mas o Mali manteve a denúncia. O La Nouvelle Tribune, jornal local, registrou que Diop reafirmou publicamente que nenhum diálogo seria estabelecido com quem “atinge as populações malianas há anos”. O dinheiro que financia o cerco a Bamako não vem do deserto, mas de Paris e Washington.
Os Estados Unidos entraram nessa pilhagem sem disfarces. A Reuters noticiou que o responsável pela África no Departamento de Estado, Nick Checker, declarou que o país precisava “lidar com o mundo como ele é” e abandonar a ilusão de “impor a democracia”. A administração Trump ofereceu apoio militar às juntas do Sahel em troca de acesso ao lítio e ao ouro, conforme confirmou a mídia internacional. É a política externa reduzida a um balcão de negócios, enquanto a população do Mali, Níger e Burkina Faso segue entre as mais pobres do planeta.
Esses países disseram basta. Em setembro de 2023 formaram a Aliança dos Estados do Sahel. Em janeiro de 2024 anunciaram a saída da CEDEAO, denunciando uma organização que trocou o pan-africanismo pelos interesses estrangeiros. A BBC News Afrique acompanhou o processo. A França foi expulsa. As tropas da ONU se retiraram. Em junho de 2024, o Níger revogou a licença da Orano e nacionalizou a mina da Somaïr. A AFP confirmou que a transnacional francesa perdeu o controle operacional enquanto o regime militar reivindicava “o direito legítimo do Níger de dispor de suas riquezas naturais”.
Foi nesse contexto que a Rússia entrou em cena. Os grupos paramilitares ligados ao Kremlin chegaram ao Mali em 2021 e depois se estenderam a Burkina Faso e ao Níger. Após a morte de Prigozhin, passaram ao controle do Ministério da Defesa russo com o nome de Africa Corps. A Rússia não faz caridade, mas sua presença se dá por acordos bilaterais, sem impor os programas de ajuste que o FMI e o Banco Mundial usam como chicote há décadas. Para nações militarmente despidas, o apoio russo foi uma janela de sobrevivência.
A queda de Kidal, porém, escancara os limites dessa saída. As forças russas negociaram e foram embora. Não se exige que mercenários estrangeiros morram por uma causa alheia, mas é exatamente essa a armadilha. A Rússia pode ser um contrapeso útil ao imperialismo ocidental, mas jamais substituirá um exército nacional enraizado no povo. Terceirizar a defesa é entregar a soberania a quem pode fazer as malas a qualquer momento. Enquanto a segurança do Mali depender de aviões russos ou drones turcos, a soberania será miragem.
A história ensina. A China de Mao construiu um exército popular enraizado no campesinato. O Vietnã derrotou franceses e americanos com doutrina própria. Cuba resiste há mais de sessenta anos porque fez da defesa uma tarefa de todo o povo. A soberania ou é popular, ou não existe.
O Brasil conhece essa ferida. A Base de Alcântara foi entregue ao controle americano no governo Bolsonaro. A Embraer quase foi vendida a preço de banana para a Boeing, e só não foi porque houve resistência organizada. Nossa indústria de defesa foi sufocada por governos que tratam as Forças Armadas como puxadinho do Pentágono.
A ofensiva de 25 de abril é a contraofensiva imperialista. O JNIM e a FLA, que se enfrentavam em 2012, agora atuam juntos. A BBC News Afrique descreveu essa aliança como “contra a natureza”, com dois grupos que “põem de lado suas divergências para atacar um inimigo comum, a junta militar”. As mesmas potências ocidentais que fomentaram a divisão entre tuaregues e jihadistas. Agora, juntam as duas forças contra qualquer governo que desafie a ordem neocolonial.
Sadio Camara tombou resistindo. Os povos do Sahel estão sitiados, mas não se renderam.
A classe trabalhadora brasileira precisa enxergar sua própria história no Sahel. O que França e Estados Unidos fazem na África é o que fizeram na América Latina por séculos. A aproximação com a Rússia é uma aliança tática legítima num momento em que o inimigo principal é o imperialismo ocidental, mas nenhum aliado externo substitui uma força de defesa nacional soberana. A solidariedade internacionalista é a trincheira comum de quem recusa a ordem do FMI e das transnacionais. O cerco a Bamako é o símbolo de um mundo em crise, mas a resistência dos povos do Sahel aponta o único horizonte possível, uma ordem internacional construída sobre a soberania real de todas as nações oprimidas.