A base social dos sem-teto, é uma base significativamente variada. Contendo elementos em grande maioria, que se encontram excluídos das relações formais de trabalho, mas não se limitando somente à eles. Além dessa características relativas ao mundo do trabalho, são pessoas que possuem também outros elementos que constituem sua identidade, se interpenetrando com a primeira dimensão.
São homens, mulheres, negros, brancos, indígenas, quilombolas, estudantes, lgbts, artistas de rua, entre outros. São pessoas, trabalhadores e trabalhadoras, filhos e filhas de trabalhadores, excluídos do direito à cidade, excluídos das condições mínimas para sua sobrevivência. Cabe salientar essa questão da classe social, para prevenir nossa base de ser ludibriada com o identitarismo pró imperialista da burguesia e da pequena burguesia, que busca sequestrar essas pautas de maneira demagoga, para garantir a perpetuação do capitalismo através de medidas publicitárias que não mudam em absolutamente nada, a vida dessas pessoas.
Essa diversidade de características, tem como eixo comum, exatamente essa peculiaridade da fase neoliberal do capitalismo e do imperialismo, que é a exclusão de uma ampla massa popular de questões fundamentais para a sobrevivência, que vão desde o acesso ao mundo do trabalho até o acesso à cultura, educação, moradia, saneamento, mobilidade, etc.
Nesse sentido, um jornal voltado para questões que perpassam a vida dessas pessoas, é fundamental para que estas possam compreender a raiz de todas essas mazelas, de toda essa imposição de um conjunto de desgraças, que os colocam sob esta circunstância de profunda miséria e repressão. O neoliberalismo é um formato de organização do sistema capitalista e por conseguinte do imperialismo, completamente reacionário, pois sua sustentação se dá através do processo de destruição das forças produtivas. Logo, esse processo de destruição das condições de sobrevivência da classe trabalhadora, é um dos pilares estratégicos para sustentação, consolidação e perpetuação do neoliberalismo.
Essa questão muita das vezes, por ser algo novo, passa despercebido ou é negligenciado por outras organizações. Logo, cabe a nós mesmos explicar pacientemente aos trabalhadores e aos nossos aliados sobre isso. A questão urbana, não é secundária, a questão urbana é central para a destruição do capitalismo e o nascimento do socialismo.
Por ter uma base social bastante variada, onde a grande maioria se encontra completamente esmagada pelas pressões econômicas e da repressão do aparato fascista do Estado ou fora dele, e pelo fato do Brasil ser um país continental, essa base social se encontra em grande medida dispersa, tendo de lidar com os imensos desafios da sobrevivência no nosso país. Quando estão minimamente organizadas, a atuação ocorre de maneira localizada e em pequena escala, também por conta das limitações impostas pelo regime político e econômico, que vigoram no país, e que foram agravadas com a destruição do patrimônio nacional com o golpe de 2016.
Sendo assim, um jornal militante e de caráter nacional (assim como nossa organização popular urbana de luta pela moradia), voltado para essa base social, torna-se em um centro aglutinador, de organização e conscientização da mesma, canalizando e dando vazão ao descontentamento geral com a situação de caos que se instalou no país, para atacar os pilares de sustentação dessas circunstâncias de exploração e exclusão.
Logo, um jornal militante, voltado para os trabalhadores e trabalhadoras sem-teto, torna-se fundamental para dar prosseguimento e aprimorar nossa luta, por nosso eixo e por nossas bandeiras.
Porque um jornal impresso?
O jornal impresso, por ser fruto de uma articulação e organização do trabalho, socialmente combinada, e para além disso, em nosso caso, pelo trabalho militante e sua combinação, pelo esforço revolucionário, torna-se a materialização dessa atividade militante e da própria concepção científica dos trabalhadores, na prática.
Os quadros conscientes de fato no país, ainda se encontram em um número limitado e em certa medida, estão em grande parte de seu tempo, por conta das condições massacrantes de sobrevivência no país, tentando sanar suas necessidades fundamentais e dispersos. Entrando no impasse destacado por Lenin, de que
“há homens e não há homens”.
Há homens e mulheres suficientes em condições de exploração para se contrapor à dominação capitalista. Porém, não há homens e mulheres conscientes, em condições organizativas, de aglutinação, capazes de levar à cabo e até o fim uma marcha que coloque abaixo essas circunstâncias de exploração.
Nesse sentido, o jornal atua em dois flancos: o de sanar a debilidade da falta de um quantitativo de pessoas que possam propagandear, realizar um amplo trabalho de convencimento e explicar aos trabalhadores sobre as circunstâncias de exploração, ou seja, de nos encontrarmos em diversos lugares ao mesmo tempo; e o de recrutar e formar quadros dirigentes que possam levar a frente essa investida dos trabalhadores contra os exploradores, canalizando o descontentamento geral e espontâneo das massas, ante as condições de vida degradantes que o capitalismo nos impõe.
Logo, o jornal impresso, se torna um braço fundamental para que possamos estar presentes fisicamente diversos lugares distintos e ecoando nossos discursos, nossas formulações e orientações políticas. Através de um jornal impresso e distribuído nacionalmente, nossa voz chega aos trabalhadores simultaneamente e os orienta. Permite que possamos entrar em contato com diversas pessoas, algo que mesmo com um contingente significativo de quadros, ainda assim nos encontraríamos atados, pois uma pessoa não pode se encontrar em vários lugares distintos ao mesmo tempo.
Esse instrumento, em um país continental como o Brasil e para uma organização de caráter nacional, como o Movimento Nacional de Luta pela Moradia, se torna fundamental para a formação política, a instrumentalização intelectual de nossa base, de direcionamento e sintonização, para a edificação de um movimento popular organizado e de massas.
Não apenas isso, o jornal também é um dinamizador e organizador de um trabalho coletivo interno, permitindo a sintonização de nosso trabalho entorno de um objetivo comum: a divulgação, a troca de experiências e aprendizados de diversas partes do país, a mobilização, a disciplina e a organização (interna e externa) de trabalhadores para a efetivação da luta pela moradia, pela reforma urbana e por conseguinte, pelo socialismo.
O jornal, exige um esforço coletivo para a sua efetivação, que vai desde a organização de um trabalho intelectual, na elaboração de formulações políticas sobre fenômenos cotidianos da vida política do país que afetam a classe trabalhadora; até a organização da logística de distribuição e da comercialização do material. O que exige um envolvimento dos militantes para efetivação daquilo que se quer transmitir e realizar. Aqui está o centro da importância de um jornal militante de caráter nacional.
Rotineiramente estamos imersos no trabalho local e artesanal, ou seja, disperso, em que os resultados são pequenos, e num quadro de sociedade globalizada e capitalista, o mesmo tem um curto efeito para a mudança em um quadro geral nesse mundo de exploração. Nesse sentido, o trabalho em escala e em sintonia nacional, tende a elevar nosso poder de fogo e a aumentar o desgaste da fortaleza de nossos inimigos. Estrategicamente, o trabalho articulado simultaneamente em escala nacional, nos permite despender forças naquilo que realmente pode possibilitar uma mudança geral na situação e fortalecer inclusive a conquista de pautas locais. Afinal, será em cada estado onde temos atuação, que vamos divulgar diversas experiências de outras localidades para a compreensão de que os fenômenos da exploração, do despejo, da fome, do desemprego, os desastres naturais, a destruição da educação e da saúde, são questões gerais que vem sendo impostas pelo neoliberalismo e pela política golpista.
Lenin destacava o jornal militante, enquanto o fio de prumo para edificação da luta dos trabalhadores pelo socialismo. O jornal Tribuna do Movimento, no próximo período, será a ferramenta para erguer o edifício da reforma urbana que queremos, que só poderá se tornar uma realidade, com um amplo movimento de massas que edifique a consolidação da libertação nacional e do socialismo no Brasil.