A pesquisa nacional de opinião pública encomendada pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e realizada pela Ágora Consultores, com quase 10 mil entrevistados entre 17 e 23 de novembro de 2025, confirma aquilo que os socialistas vêm afirmando há décadas: a população brasileira está cansada do sistema político atual, da democracia burguesa e de suas instituições.

Segundo o levantamento, 35% dos brasileiros afirmam que mudanças só viriam com rupturas radicais, enquanto 10% avaliam que uma revolução já está em curso, ainda que lentamente. Somados, são quase metade da população expressando rejeição ao status quo. Em contrapartida, apenas 5% defendem que o sistema atual é melhor do que qualquer alternativa revolucionária. Os dados não apontam estabilidade democrática, mas esgotamento social e político profundo.

Fonte: ICL Notícias

Gráfico da pesquisa

No entanto, a pesquisa também revela uma confusão estrutural sobre o que é, de fato, o sistema político brasileiro. A maioria da população rejeita o Congresso, o Senado, o Judiciário, o STF, os governos e os partidos, mas não identifica essas instituições como partes orgânicas de um mesmo sistema: o capitalismo em sua forma de democracia liberal burguesa. As instituições desacreditadas pelo povo são, justamente, instituições burguesas, desenhadas para servir ao capital, aos grandes proprietários, ao mercado financeiro e ao latifúndio (agronegócio).

A esquerda institucional se torna conservadora

Esse mal-estar, porém, não se distribui de forma homogênea entre os campos políticos. A pesquisa mostra que entre os eleitores de Lula em 2022, 63% se posicionam contra uma revolução, defendendo que “a democracia deve ser respeitada”. Apenas 16% desse grupo afirmam que mudanças só ocorreriam por meio de rupturas radicais. De forma semelhante, entre aqueles que se identificam como esquerda, 62% entendem que o sistema político atual precisa de “ajustes”, mas acreditam que essas mudanças podem vir pela via eleitoral, sem romper com o sistema capitalista.

Esses dados são reveladores. Eles demonstram como a esquerda institucional brasileira — especialmente o petismo e o chamado “campo democrático popular” — se tornou conservadora. Conservadora não no sentido moral, mas no sentido político de defender a manutenção das instituições da democracia burguesa, tratando “democracia” como um conceito abstrato, descolado de sua base material. É preciso adjetivar: não existe democracia em abstrato. O que existe no Brasil é uma democracia burguesa, que funciona plenamente para a classe dominante e de forma limitada, violenta e excludente para a classe trabalhadora.

O Estado para a classe trabalhadora

Enquanto a esquerda institucional se agarra à defesa do “Estado Democrático de Direito” e das “instituições”, a maioria da população não se vê representada nessa democracia. Para as periferias, o Estado chega majoritariamente como polícia, repressão e encarceramento, e não como garantidor de direitos. Falta saneamento, moradia, transporte público, energia, saúde e políticas estruturantes. Para a chamada “classe média”, o que se vive é a queda do poder de compra, a precarização do trabalho e a frustração das promessas de ascensão social.

Mesmo durante os governos petistas, políticas fundamentais como o Bolsa Família, o BPC e os programas de combate à fome — importantes e responsáveis por retirar milhões da miséria — não enfrentaram o núcleo da desigualdade brasileira: o poder do grande capital. Não houve taxação efetiva das grandes fortunas, nem enfrentamento do sistema financeiro, nem uma política consistente de reindustrialização. Ao contrário, manteve-se a financeirização da economia e avançaram privatizações e concessões de setores estratégicos, como transporte, energia, água e serviços públicos.

A precarização do trabalho

Esse modelo produziu uma distorção profunda do que passou a ser entendido como “esquerda”. Enquanto se comemoravam índices de “pleno emprego”, o que crescia era o trabalho informal, precarizado e mal remunerado, sobretudo no setor de serviços — realidade amplamente documentada por dados do IBGE e do DIEESE. A CLT foi enfraquecida, direitos foram retirados e a precarização passou a ser naturalizada, inclusive com apoio de parcelas da opinião pública, fruto da hegemonia neoliberal.

Nesse contexto, a esquerda institucional passou a defender com unhas e dentes um STF que o povo não reconhece como legítimo. Um Supremo Tribunal que retira direitos trabalhistas, mantém relações promíscuas com grandes empresários e banqueiros, promove eventos privados ao lado do capital financeiro e protagoniza escândalos recorrentes de lobby e conflito de interesses. Defender a punição dos golpistas de 8 de janeiro é correto; iludir-se achando que essas instituições defendem uma democracia popular é um erro político grave. Elas defendem, antes de tudo, a si mesmas e a reprodução do poder burguês.

A extrema direita avança

É nesse vazio que a extrema direita neofascista avança. Como mostra a pesquisa, 48% dos eleitores de Bolsonaro defendem rupturas radicais, e entre direita e centro-direita esse número chega a 50% e 51%. A extrema direita se apropria de pautas históricas da esquerda, como revolução, ruptura e combate às elites, oferecendo uma falsa saída. Não propõe superar o capitalismo, mas aprofundá-lo em sua forma mais brutal, neoliberal e autoritária — como já se vê na Argentina de Milei ou no Equador de Noboa.

A pesquisa do ICL confirma, portanto, um alerta antigo do movimento comunista: a população brasileira não aguenta mais ser feita de palhaço. Não aguenta governos que anunciam crescimento enquanto falta comida no prato. Não aguenta empregos cada vez mais precários. Não aguenta ver ministros do STF confraternizando com empresários, banqueiros e políticos do centrão — essa direita tradicional brasileira que nunca teve nada de centro. O artigo primeiro da Constituição, que afirma que “todo poder emana do povo”, não se realiza em um sistema estruturalmente construído para garantir que a propriedade privada esteja acima da vida, da moradia e dos direitos sociais.

A escolha é objetiva

Diante desse cenário, a escolha é objetiva. Ou a esquerda rompe com o conservadorismo, retoma o trabalho de base, sai dos gabinetes e volta às ruas para disputar o sentimento antissistêmico do povo, explicando que o problema não são apenas instituições isoladas, mas o próprio sistema capitalista e sua democracia burguesa; ou continuará empurrando a classe trabalhadora para o colo da extrema direita, que fala em “revolução” enquanto oferece barbárie.

Quanto mais a esquerda se vende em nome de uma governabilidade de fachada, mais despolitiza a classe trabalhadora e mais abre espaço para que a extrema direita ocupe as ruas falando em mudança radical. Uma mudança falsa, reacionária e profundamente antipopular — mas que cresce exatamente onde a esquerda abandonou sua tarefa histórica.


Matheys Hygino é analista político e militante dos movimentos populares