Entre os dias 13 e 15 de fevereiro de 2026, ocorreu a 62ª Conferência de Segurança de Munique (MSC), nos hotéis Bayerischer Hof e Rosewood Munich.
Liderado pelo presidente da MSC, o embaixador Christoph Heusgen, o evento reuniu centenas de tomadores de decisão e líderes de opinião de diversas regiões do mundo, incluindo mais de 40 chefes de Estado e de governo, com o objetivo de debater os desafios da política de segurança global.
Os tópicos abordados, segundo os organizadores, incluíram a defesa europeia, o futuro da relação transatlântica, a revitalização do multilateralismo, visões concorrentes da ordem global, conflitos regionais e as implicações de segurança dos avanços tecnológicos, entre outros temas urgentes.
Complementando essas discussões, foi apresentado o Relatório de Segurança de Munique sob o título
“Under Destruction”
(Sob Destruição). O documento atua como um alerta sobre uma “política de demolição” que ameaça a ordem internacional estabelecida após 1945. O foco principal da obra é analisar o desmonte sistemático de normas e instituições globais, impulsionado principalmente por potências que outrora as sustentavam, resultando no enfraquecimento de órgãos como a ONU e a OMC, que deixaram de ser mediadores eficazes para se tornarem arenas de bloqueio político. Diante desse cenário, torna-se fundamental examinar como essas forças disruptivas se manifestam na prática, detalhando os pontos principais desse documento, suas discussões e as relações materiais com o momento atual no mundo.
Já em seu sumário executivo, o documento coloca uma preocupação sobre os caminhos que o “mundo” vem tomando, enfatizando, nos primeiros momentos do texto, que “forças políticas que priorizam a destruição em detrimento de reformas estão ganhando força”, mas não sem dar uma suavizada para um movimento de “neocolonização intervencionista”. Suas agendas disruptivas se baseiam na ampla insatisfação com o desempenho das instituições democráticas e na crescente perda de confiança em reformas significativas e correções de rumo político, soando quase como uma justificativa para tais movimentos.
Elegendo o presidente estadunidense Donald Trump como o que mais destrói regras e instituições existentes, há uma crítica não só a ele, mas ao caminho escolhido pelos Estados Unidos, claro, de forma suavizada. Em um jogo semântico de atribuir certas posições e movimentos a uma pessoa, ou “apoiadores” dessa visão, nunca como uma política sistêmica; na verdade, o documento nem condena tais práticas, só questiona sua eficácia momentânea.
Frases como “A renúncia, por parte da administração dos EUA, a elementos centrais da ordem internacional vigente está impactando diferentes regiões do mundo e desestabilizando diversas áreas políticas.” ou “Washington promete romper com a inércia institucional e impulsionar a resolução de problemas em desafios marcados por impasses. Os avanços nas metas de gastos com defesa da OTAN e no cessar-fogo entre Israel e Hamas são exemplos disso. No entanto, não está claro se a destruição está realmente abrindo caminho para políticas que aumentarão a segurança, a prosperidade e a liberdade das pessoas.” demonstram muito bem essa visão.
É válido lembrar que a grande preocupação da Conferência de Segurança é com esses impactos, principalmente nas regiões da Europa e do Indo-Pacífico, “onde os governos há muito dependem da ‘Pax Americana’ e dela se beneficiam enormemente”, no desenvolvimento do comércio global, do desenvolvimento internacional e da assistência humanitária. Caro leitor, não se engane: assistência humanitária aqui é mera retórica, como o próprio documento constata:
“Diante dos sinais mutáveis vindos de Washington, as nações europeias estão se esforçando para manter os EUA engajados, ao mesmo tempo que se preparam para uma maior autonomia”.
Avançando um pouco, o capítulo dois do Relatório de Segurança de Munique trata da Europa, com o subtítulo “questão de desapego”, em que é feita uma análise sobre o fim da tal “Pax Americana” diante do continente europeu, principalmente depois do início da guerra russo-ucraniana. “Os EUA também têm enviado sinais contraditórios quanto à velocidade e à escala de seu recuo, bem como quanto à sua abordagem geral em relação à segurança europeia, oscilando entre tranquilização, condicionalidade e coerção. Essa ambiguidade, em termos psicológicos, prendeu os europeus entre a negação e a aceitação.” Segundo o relatório, essa inconsistência por parte dos EUA vem expondo as persistentes deficiências militares do continente, e manter os estadunidenses ancorados na ordem de segurança europeia vem adiando a tarefa de preparar o continente para um futuro em que essas mudanças não sejam mais significativas.
Outro ponto colocado nesse capítulo é a persistente transferência de responsabilidade da guerra pelos EUA para os aliados europeus: “na preparação para a cúpula da OTAN em Haia, em junho passado, o presidente Trump instou os membros da OTAN a aumentarem a meta de gastos com defesa da Aliança de dois para cinco por cento do PIB nacional”, evidenciando ainda que a ajuda militar dos estadunidenses à Ucrânia vem caindo drasticamente desde 2025, deixando, assim, as nações europeias e parceiros selecionados com a maior parte das dívidas.
“A era em que a Europa podia contar com os EUA como um garante de segurança incontestável terminou. Os líderes europeus devem aceitar esta realidade e agir em conformidade. A defesa dos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, soberania, integridade territorial e renúncia ao uso da força, continua a ser o alicerce de uma paz duradoura na Europa e no mundo. A curto prazo, isso exigirá um envolvimento diplomático sustentado e firme para garantir que qualquer acordo entre a Ucrânia e a Rússia esteja firmemente alicerçado nesses princípios.”
No capítulo 3, com o título de Indo-Pacífico: pacto ou ficção, o relatório coloca em xeque a hegemonia dos Estados Unidos na região, que era caracterizada por décadas de estabilidade e crescimento e está ruindo diante da ascensão de uma China que busca dominar a região militar e economicamente. Com um PIB superior ao de seus vizinhos combinados e um exército em rápida modernização, Pequim ameaça a estabilidade regional através de ações assertivas, especialmente em direção a Taiwan e no Mar do Sul da China, desafiando a antiga “Pax Americana”.
“Contudo, há algum tempo, a ascensão da China ao status de superpotência vem erodindo a preeminência dos EUA no Indo-Pacífico. Na visão de Pequim, a China está recuperando a posição de hegemonia regional de fato que ocupou durante grande parte da história. A China já é o centro de gravidade econômico da região: todos os países da região comercializam mais com a China do que com os EUA, e o PIB chinês supera o de todos os seus vizinhos combinados. O mesmo ocorre com seu orçamento militar.”
Diante da percepção de um compromisso incerto dos EUA e de uma política externa focada em transações, nações como Japão, Coreia do Sul e Filipinas elevam seus gastos de defesa, iniciando uma corrida armamentista local. O Indo-Pacífico vive, portanto, uma transição para um cenário de incerteza, em que atores regionais buscam fortalecer capacidades próprias e equilibrar relações em um ambiente de crescente rivalidade entre as potências.
O capítulo 4, Economia Global: Termos de Troca, coloca que, em 2025, a ordem comercial global sofreu uma ruptura histórica, com os EUA adotando tarifas agressivas sob a doutrina do “Liberation Day”, abandonando as regras da OMC em favor de coerção econômica e acordos bilaterais, enquanto a China intensificou o uso de controles de exportação como arma geopolítica. Essa transição da reciprocidade para a lei do mais forte reflete a rivalidade entre superpotências, em que interesses de segurança nacional superam ganhos econômicos compartilhados.
Embora o impacto no PIB global tenha sido inicialmente menor que o temido, a fragmentação econômica e a incerteza recorde ameaçam o bem-estar mundial, prejudicando especialmente países em desenvolvimento. Diante do enfraquecimento do multilateralismo, emergem novas coalizões menores que tentam preservar os princípios da OMC, deixando incerto se o sistema colaborativo sobreviverá ao aumento de negociações hostis.
Terminando com o capítulo 5, Desenvolvimento e Assistência Humanitária: Morte por Mil Cortes?, coloca-se que o sistema internacional de desenvolvimento enfrenta uma crise existencial, marcada por cortes drásticos no financiamento por doadores tradicionais, como EUA e Alemanha, que redefiniram seus interesses nacionais focando em segurança e competição geopolítica. De acordo com o Relatório de Segurança de Munique 2026, a politização da ajuda e o “America First” reduziram o suporte a nações de baixa e média renda, abrindo espaço para a expansão da influência chinesa em agências da ONU. Essa “morte por mil cortes” ameaça a estabilidade do auxílio humanitário e exige reformas urgentes para restaurar a legitimidade do sistema.
A 62ª Conferência de Segurança de Munique e seu relatório “Under Destruction” não descrevem apenas uma crise institucional, mas o esgotamento da fase imperialista sob a hegemonia unipolar dos EUA. O que o documento chama de “destruição” é, na verdade, a reconfiguração material das relações de poder, em que o neocolonialismo abandona a máscara do multilateralismo liberal para assumir sua face mais crua: a coerção econômica direta e a militarização das zonas de influência.
A transição da Pax Americana para uma fragmentação agressiva revela que as instituições globais (ONU, OMC) nunca foram mediadoras neutras, mas ferramentas de manutenção do capital que, ao perderem sua utilidade para a metrópole em crise, são descartadas em favor do protecionismo e da “lei do mais forte”. O avanço sobre o Indo-Pacífico e a pressão sobre a Europa para o autofinanciamento bélico demonstram que, na disputa entre grandes potências, a periferia global e as classes trabalhadoras continuam sendo o palco da acumulação por espoliação, reafirmando que a segurança discutida nesses hotéis de luxo nada mais é do que a salvaguarda da rentabilidade das elites transnacionais em um mundo em que a diplomacia deu lugar à guerra comercial e territorial permanente.