A Luta Histórica por Direitos
Quero começar este texto reafirmando a máxima: “Todo avanço nos direitos trabalhistas tem raízes na luta coletiva dos trabalhadores, como evidenciado ao longo da história”. Como todo progresso que mexe nas estruturas de classe, este também enfrenta movimentos conservadores nas dimensões econômica, política e social.
No momento em que escrevo estas linhas, a discussão sobre a redução da jornada de trabalho, fruto de pressões sociais, mobilizações e reivindicações coletivas, tomou corpo suficiente para que possamos enxergar, de forma clara, as reações dos setores reacionários brasileiros e sua aversão a qualquer avanço no bem-estar social.
O Avanço da Proposta 6x1
Nos últimos meses, cresceu a pressão para o fim da escala 6x1. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2025, que tramita no Senado, prevê a redução da jornada semanal para 36 horas e a obrigatoriedade de dois dias de descanso, efetivamente extinguindo o modelo atual.
Em dezembro de 2025, a PEC foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e aguarda votação no plenário. Paralelamente, na Câmara dos Deputados, a PEC apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), inspirada no movimento Vida Além do Trabalho (VAT), também busca estabelecer a jornada de quatro dias. A proposta já conta com mais de 130 assinaturas, aproximando-se das 171 necessárias para a tramitação formal.
O Terrorismo Midiático
No mesmo ritmo, os ataques da mídia hegemônica contra a proposta se intensificaram. Talvez o movimento mais escancarado tenha vindo da Folha de S.Paulo, ao afirmar que, “em comparação com o resto do mundo, o brasileiro não trabalha muito. Nem pode ser considerado particularmente esforçado”.
Comparação Injustificável
Comparação em relação a quais países?
- Islândia: onde, desde 2019, a escala reduzida se tornou padrão para 90% dos trabalhadores
- Holanda: com uma jornada média de 29,2 horas semanais e leis que limitam a jornada diária
O jornal informa que os dados analisados são do economista Daniel Duque (FGV Ibre) e, conforme o texto, tenta transferir a culpa aos próprios trabalhadores: “Sob qualquer desses critérios, o brasileiro trabalha menos do que seria esperado”.
Caro leitor, isso não faz nenhum sentido e não encontra vazão no mundo real; o nome disso é terrorismo econômico, um ataque direto a quem trabalha e ao direito de viver.
O Discurso do Medo
Poucos dias após a matéria da Folha, outro estudo do mesmo FGV Ibre, assinado pelos professores Fernando de Holanda Barbosa Filho e Paulo Peruchetti, ganhou as capas dos maiores jornais do país.
O estudo busca uma base teórica para sustentar a tese de que a redução “quebrará o país”, o mesmo argumento utilizado contra cada avanço histórico de direitos. Trata-se de uma desonestidade intelectual e de um reducionismo gigante da discussão.
A Falácia do Aumento de Custos
“É um exercício sobre os efeitos que as empresas podem enfrentar se nenhum instrumento for adotado para amenizar o aumento de custo”, explicou Barbosa Filho.
No entanto, experiências ao redor do mundo mostram que a redução da jornada não compromete a produtividade; ao contrário, melhora o bem-estar e reduz o burnout. Mas onde essas análises aparecem nos estudos da FGV?
A Manutenção do Status Quo
O discurso promovido pelo instituto e replicado pelas mídias cria um cenário mentiroso sobre a economia brasileira a fim de manter o status quo.
O pensamento das elites conservadoras não mudou em mais de 500 anos: da escravidão ao Estado Novo, até a redemocratização, o direito à vida plena parece ser tratado como uma exclusividade deles, enquanto o resto da população deve morrer de trabalhar.
A Realidade Internacional
Enquanto o Brasil debate com medo, outros países avançam:
- Reino Unido: testes bem-sucedidos com semana de 4 dias
- Espanha: projeto piloto com empresas de diversos setores
- Japão: governo incentiva empresas a adotar jornadas reduzidas
- Alemanha: sindicatos negociam redução em diversos setores
Conclusão: Uma Questão de Dignidade
A luta pela redução da jornada de trabalho não é apenas uma questão econômica, mas uma luta por dignidade humana. É o reconhecimento de que trabalhadores merecem tempo para viver, para estar com suas famílias, para estudar, para se cuidar.
O terrorismo midiático tenta esconder essa verdade básica: trabalhadores não são máquinas, são seres humanos.
“A história nos ensina que toda conquista de direitos enfrentou resistência. O futuro nos mostrará que a redução da jornada era inevitável.”