A urbanização contemporânea não é apenas um processo técnico de expansão territorial ou modernização de infraestrutura, é, sobretudo, um campo de disputa política, econômica e simbólica, onde o direito à cidade é seletivamente distribuído.
Nesse contexto, a exclusão social deixa de ser um efeito colateral e passa a ser um componente funcional de um modelo que privilegia a acumulação e a valorização imobiliária em detrimento da dignidade humana. Neste cenário, grandes projetos urbanos, frequentemente justificados sob o discurso da inovação e da competitividade global, acabam por deslocar populações vulneráveis, fragmentar comunidades e aprofundar desigualdades históricas. A cidade, que deveria ser espaço de encontro e diversidade, transforma-se em território de segregação velada.
A diversidade urbana, tão exaltada nos discursos institucionais, é, na prática, submetida a um processo de domesticação, onde culturas periféricas são apropriadas como mercadoria estética, enquanto seus sujeitos continuam marginalizados. Trata-se de uma diversidade tolerada apenas quando não confronta as estruturas de poder, pois o pluralismo, nesse contexto, não é celebrado como força política transformadora, mas instrumentalizado como estratégia de marketing urbano.
É nesse ponto que o imperialismo, não apenas em sua forma clássica, territorial, mas também em sua dimensão econômica e cultural, se manifesta com intensidade, onde modelos de cidade importados, baseados em padrões globais de consumo e produtividade, são impostos a realidades locais sem considerar suas especificidades sociais e históricas. O resultado disso é a homogeneização dos espaços urbanos e a invisibilização das identidades que não se encaixam nesse padrão dominante.
O imperialismo urbano contemporâneo opera por meio de fluxos de capital, políticas públicas orientadas por interesses transnacionais e pela imposição de uma lógica de cidade-mercadoria. Nesse processo, o espaço urbano deixa de ser um direito coletivo e passa a ser tratado como ativo financeiro, e a cidade, por sua vez, deixa de ser vivida, passando a ser facilmente negociada.
Quando falamos em desenvolvimento, seria desenvolvimento para quem afinal? A quem serve a modernização das cidades se ela amplia o abismo entre centro e periferia, entre visibilidade e invisibilidade, entre cidadania plena e sobrevivência precária?
Reverter esse quadro exige mais do que intervenções pontuais, requer uma ruptura com o paradigma dominante, a construção de políticas urbanas inclusivas e a valorização efetiva da diversidade como elemento estruturante, e não decorativo, do espaço urbano. Na realidade, isto significa reconhecer que o verdadeiro desenvolvimento não pode coexistir com a exclusão, e que nenhuma cidade será sustentável enquanto parte de sua população for sistematicamente deixada à margem.
Por fim, queremos ressaltar que o futuro urbano não pode ser desenhado sob a lógica do imperialismo e da exclusão, ele precisa ser construído a partir da equidade, da justiça social e do reconhecimento pleno da diversidade como potência, e não como obstáculo.
Sandro de Menezes Azevedo Coordenador Estadual MNLM/SE