Durante décadas, a América Latina conviveu com relações profundamente assimétricas, nas quais interesses econômicos e geopolíticos de grandes potências frequentemente se sobrepuseram às necessidades dos povos latino-americanos.

É preciso compreender que o chamado imperialismo não se manifesta apenas pela ocupação territorial ou pela força militar. Ele também pode aparecer por meio da dependência econômica, do controle tecnológico, da pressão financeira, da disputa por recursos naturais, da influência política e da capacidade de determinados centros de poder condicionarem as escolhas de países periféricos.

Por isso, defender uma política externa soberana não significa defender isolamento, significa defender capacidade de negociação. Significa também ampliar o comércio regional, fortalecer cadeias produtivas, compartilhar tecnologia, investir em ciência, infraestrutura e educação, proteger recursos estratégicos e construir mecanismos de cooperação capazes de reduzir vulnerabilidades históricas.

Quando países latino-americanos negociam isoladamente com grandes potências, a assimetria de poder pode ser gigantesca. Por outro lado, quando constroem alianças, fortalecem instituições regionais e negociam coletivamente. A América Latina aumenta sua capacidade de dizer não quando necessário, e de dizer sim quando houver benefício mútuo.

Mas existe uma dimensão ainda mais profunda, ou seja, trocando em miúdos, a diplomacia precisa estar conectada ao povo.

Não basta celebrar acordos internacionais enquanto milhões de latino-americanos continuam enfrentando pobreza, precarização do trabalho, desigualdade, insegurança alimentar e falta de oportunidades.

Uma política externa verdadeiramente soberana precisa produzir soberania também dentro de casa.

Não existe independência geopolítica plena quando um país não consegue garantir dignidade social à sua população. Não existe desenvolvimento sustentável quando a riqueza produzida pelo território não retorna em forma de emprego, renda, tecnologia, educação e qualidade de vida. E não existe integração latino-americana verdadeira se ela permanecer restrita às elites políticas e econômicas.

A América Latina precisa construir pontes entre governos, universidades, trabalhadores, empresas, movimentos sociais, pesquisadores e comunidades, porque a soberania não pertence apenas ao Estado.

A soberania pertence, sobretudo, ao povo.

O Brasil pode e deve exercer liderança diplomática responsável na região, mas liderança não significa tutela, mas sim diálogo e autonomia estratégica.

Em um mundo cada vez mais disputado por interesses econômicos, tecnológicos, energéticos e geopolíticos, a América Latina precisa compreender que quem não participa da construção das regras internacionais acaba vivendo sob regras construídas por outros.

Por isso, fortalecer as relações diplomáticas do Brasil com seus vizinhos não é apenas uma escolha de política externa, é uma estratégia de desenvolvimento.

Porque quando a América Latina conquista maior autonomia para decidir seu futuro, quem deve estar no centro dessa decisão não são os interesses externos, mas os seus povos tradicionalmente identitários.