Conectividade de Luxo, Abandono Estrutural: O Verdadeiro Retrato das Cidades
A retórica das “cidades inteligentes” se consolidou como um dos pilares do urbanismo contemporâneo, onde sensores, big data, inteligência artificial e governança digital são apresentados como soluções sofisticadas para mobilidade, segurança, gestão de resíduos e eficiência energética, todavia, esse discurso tecnológico, frequentemente ancorado em agendas de inovação e competitividade global, esbarra na coexistência de territórios hiperconectados com periferias marcadas pela ausência do básico. O contraste não é apenas urbanístico, é político, ético e civilizatório.
A ideia de cidade inteligente, derivada de campos como Urbanismo e Ciência de Dados, pressupõe a integração de sistemas para otimizar recursos e melhorar a qualidade de vida, contudo, ao se observar a realidade de países periféricos e desiguais como o Brasil, emerge uma assimetria gritante, pois enquanto áreas centrais recebem investimentos em conectividade 5G, monitoramento em tempo real e mobilidade elétrica, vastas periferias urbanas ainda convivem com esgoto a céu aberto, ausência de drenagem, transporte público precário e insegurança estrutural. Não se trata de atraso tecnológico, mas de escolha política.
A precariedade da infraestrutura nas periferias revela um padrão histórico de negligência estatal e de planejamento urbano excludente, onde a expansão desordenada, somada à lógica de mercado que valoriza determinados territórios em detrimento de outros, produziu cidades fragmentadas. Nesses espaços marginalizados, a ausência de saneamento básico impacta diretamente a saúde pública, perpetuando doenças evitáveis e ampliando desigualdades. A promessa de cidades inteligentes, nesse contexto, soa como um verniz tecnológico aplicado sobre uma base social profundamente desigual.
A discussão ganha contornos ainda mais críticos quando analisada sob a lente do Direito à Cidade. Esse conceito, amplamente debatido nas ciências sociais, defende que todos os cidadãos devem ter acesso equitativo aos benefícios urbanos, contudo, o modelo de cidade inteligente frequentemente prioriza eficiência econômica e atratividade para investimentos, relegando a segundo plano a inclusão social. Por sua vez, a tecnologia, que poderia ser instrumento de democratização, acaba sendo apropriada como ferramenta de aprofundamento das desigualdades.
É necessário questionar: inteligente para quem? A implementação de soluções tecnológicas sem a universalização da infraestrutura básica cria uma espécie de “apartheid urbano digital”. De um lado, cidadãos conectados, com acesso a serviços digitais avançados, e de outro, populações invisibilizadas, cuja principal demanda ainda é água potável e coleta de lixo. Essa dicotomia evidencia que inteligência urbana não pode ser medida apenas por indicadores tecnológicos, mas pela capacidade de garantir dignidade.
Do ponto de vista da governança, a priorização de projetos de cidades inteligentes em detrimento de investimentos estruturais revela uma inversão de prioridades, isto porque recursos públicos são direcionados para iniciativas de alto apelo midiático e político, enquanto obras de saneamento, habitação e mobilidade básica permanecem subfinanciadas. Essa lógica não apenas perpetua desigualdades, como compromete a sustentabilidade dos próprios projetos tecnológicos, que dependem de uma base urbana funcional para operar com eficiência.
A crítica aqui não é à tecnologia em si, mas à forma como ela tem sido instrumentalizada, pois uma cidade verdadeiramente inteligente deve integrar inovação com justiça social, combinando soluções digitais com políticas públicas estruturantes, o que implica reconhecer que sensores e algoritmos não substituem redes de esgoto, pavimentação ou políticas habitacionais, ou seja, a inteligência urbana deve começar pelo básico.
Sob uma perspectiva mais ampla, o debate dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente aqueles relacionados à saúde, cidades sustentáveis e redução das desigualdades, portanto, ignorar as periferias não é apenas uma falha de gestão, mas também uma violação do princípio de equidade. Em última análise, cidades inteligentes que excluem não são inteligentes, são apenas eficientes na manutenção das desigualdades.
Em suma, o contraste entre cidades inteligentes e infraestrutura precária nas periferias expõe uma crise de prioridades, isto porque não se trata de escolher entre tecnologia e infraestrutura, mas de estabelecer uma hierarquia ética, o que significa garantir primeiramente condições mínimas de dignidade, para somente depois, potencializar essas condições com inovação. Qualquer inversão dessa lógica não representa avanço, mas um sofisticado retrocesso travestido de modernidade.