O mundo do trabalho, silenciosamente, enfrenta uma nova era de vulnerabilidades. Hoje, mais de 2,4 bilhões de trabalhadores e trabalhadoras, inseridos em uma força laboral global estimada em 3,4 bilhões de pessoas, encontram-se potencialmente expostos ao calor excessivo durante o exercício de suas atividades. Neste cenário, o calor deixa de ser apenas um elemento climático e assume contornos de risco ocupacional estrutural, atravessando setores inteiros da economia e atingindo com maior intensidade aqueles que historicamente já convivem com a precarização, a informalidade e a invisibilidade social. Canteiros de obras, lavouras, portos, estradas, fábricas e até centros urbanos transformam-se, progressivamente, em verdadeiros territórios de risco fisiológico e psicológico, onde o corpo humano é submetido a pressões térmicas que comprometem a saúde, reduzem a produtividade e ampliam a probabilidade de acidentes e adoecimentos.

Diante dessa realidade, compreender o trabalho sob a perspectiva das mudanças climáticas, deixa de ser uma escolha teórica ou acadêmica, e passa a ser uma urgência ética, técnica e civilizatória. Afinal de contas, quando o ambiente se torna hostil à própria sobrevivência no exercício profissional, já não estamos apenas discutindo eficiência produtiva, estamos discutindo limites de proteção social, responsabilidade institucional e compromisso coletivo com a vida de quem sustenta o funcionamento das sociedades.

O calor extremo não provoca apenas desconforto, na verdade, ele desencadeia colapsos térmicos, exaustão física, desidratação severa, falhas cardiovasculares e perda de capacidade cognitiva, aumentando exponencialmente a probabilidade de acidentes graves e fatais. Em contextos de vulnerabilidade social e precarização do trabalho, essa exposição assume contornos ainda mais dramáticos, pois milhões de pessoas simplesmente não têm a opção de interromper suas jornadas.

A intensificação da radiação ultravioleta já expõe cerca de 1,6 bilhão de trabalhadores, resultando em quase 19 mil mortes anuais por câncer de pele não melanoma relacionado ao trabalho. Trata-se , portanto, de uma estatística brutal que revela como atividades historicamente invisibilizadas, como a agricultura, a pesca, a construção civil e a limpeza urbana, se tornaram campos silenciosos de adoecimento crônico e morte evitável.

Simultaneamente, a poluição atmosférica no ambiente ocupacional atinge outros 1,6 bilhão de trabalhadores, contribuindo para até 860 mil mortes anuais entre aqueles que desempenham suas funções ao ar livre. O ar que deveria sustentar a vida passa a ser um agente de deterioração orgânica progressiva, favorecendo doenças respiratórias, cardiovasculares e neoplásicas. Nesse contexto, o trabalho deixa de ser apenas um meio de subsistência, e passa a representar uma exposição contínua a agentes invisíveis de desgaste biológico.

Na agricultura, por exemplo, mais de 870 milhões de trabalhadores enfrentam o risco permanente da exposição a pesticidas, com mais de 300 mil mortes anuais atribuídas ao envenenamento químico. Essa realidade evidencia uma contradição ética profunda, onde os mesmos que produzem o alimento do mundo, frequentemente trabalham em condições que comprometem a sua própria sobrevivência.

Além disso, 15 mil mortes por ano relacionadas a doenças parasitárias e transmitidas por vetores, reforçam que as alterações climáticas estão expandindo áreas de transmissão e modificando padrões epidemiológicos. O ambiente laboral torna-se, assim, um espaço onde as fronteiras entre risco ocupacional e risco ambiental se dissolvem perigosamente.

Outro aspecto frequentemente subestimado é o impacto na saúde mental. A instabilidade climática, os desastres ambientais recorrentes, a perda de produtividade, o medo de acidentes e o agravamento das condições socioeconômicas geram ansiedade ocupacional, estresse crônico, burnout climático e sensação de insegurança existencial no trabalho. O trabalhador contemporâneo não enfrenta apenas metas e pressões organizacionais, ele enfrenta também a imprevisibilidade de um mundo que se transforma de maneira acelerada.

Diante desse panorama, torna-se evidente que a agenda de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) precisa ser profundamente reconfigurada, pois protocolos tradicionais já não são suficientes. Será necessário incorporar inteligência climática às políticas ocupacionais, revisar limites de exposição, redefinir jornadas, adaptar infraestruturas, fortalecer sistemas de vigilância epidemiológica e ampliar o acesso a tecnologias de proteção. Mais do que isso, será fundamental reconhecer que a crise climática expõe desigualdades históricas. Trabalhadores informais, populações periféricas, migrantes, comunidades rurais e profissionais de baixa renda são, em regra, os mais expostos e os menos protegidos, isso quer dizer que a justiça climática, também é uma questão de justiça laboral.

O relatório da OIT, “Garantir a Segurança e a Saúde no Trabalho em um Clima em Mudança”, deixa uma mensagem inequívoca, quando nos chama à atenção para as mudanças climáticas que já estão criando riscos adicionais significativos e sistemáticos para a saúde dos trabalhadores em todas as regiões do planeta. Ignorar essa realidade significa aceitar que o trabalho, um dos pilares da dignidade humana, continue sendo realizado em condições cada vez mais incompatíveis com a preservação da vida. Estamos diante de um ponto de inflexão histórico, ou redesenhamos urgentemente os sistemas de proteção ao trabalhador em sintonia com as novas condições climáticas, ou normalizaremos um futuro em que trabalhar será, cada vez mais, um ato de insanidade física, social e ambiental.

Sandro de Menezes Azevedo Coordenador MNLM Sergipe