A Reforma Agrária, concebida historicamente como instrumento de justiça social e redistribuição de terras, vem, em muitos contextos brasileiros
operando na contramão da sustentabilidade real das famílias rurais, isto porque o problema não reside no princípio, que é legítimo e necessário, mas na forma fragmentada, desestruturada e, por vezes, meramente simbólica com que tem sido executada.
Assentar famílias sem garantir acesso contínuo a políticas estruturantes é, na prática, institucionalizar a precariedade. Devemos considerar que terra sem assistência técnica não produz, sem crédito não prospera, sem infraestrutura não integra mercados, e sem políticas de permanência no campo se transforma em abandono anunciado. A ausência de planejamento sistêmico transforma o que deveria ser emancipação em um ciclo silencioso de vulnerabilidade social.
Sob a ótica da sustentabilidade econômica, social e ambiental, a reforma agrária precisa ser compreendida como um ecossistema de políticas públicas interdependentes, pois não basta distribuir hectares, é necessário garantir capacidade produtiva, resiliência climática, acesso à tecnologia, educação no campo e cadeias de comercialização justas. Sem isso, perpetua-se um modelo que transfere a pobreza urbana para o meio rural, mascarando indicadores sem resolver o problema estrutural.
Do ponto de vista da saúde do trabalhador rural, o cenário é ainda mais crítico, onde a falta de suporte técnico expõe famílias a riscos ocupacionais, uso inadequado de insumos, jornadas extenuantes e insegurança alimentar, um paradoxo cruel para quem deveria produzir alimento. A negligência estatal, nesse sentido, não é apenas econômica, é também sanitária, social e humana.
Além disso, há um desalinhamento evidente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente aqueles relacionados à erradicação da pobreza, trabalho decente e crescimento econômico. É preciso considerar, que sem governança, monitoramento e compromisso de longo prazo, a reforma agrária deixa de ser política de transformação e passa a ser instrumento de manutenção de desigualdades sob uma nova configuração territorial, pois distribuir terra sem garantir dignidade é apenas uma reforma de fachada. A verdadeira transformação exige integração entre reforma agrária, desenvolvimento rural sustentável e políticas de proteção social, como também requer compromisso com resultados concretos, e não apenas com narrativas políticas.
Se o campo não for tratado como espaço estratégico de desenvolvimento, continuaremos assistindo à erosão silenciosa de sonhos, ao esvaziamento das comunidades rurais e à perpetuação de um modelo que, ao invés de libertar, aprisiona famílias em uma nova forma de invisibilidade social.