Falar em limites de carbono no contexto das comunidades rurais, à luz das diretrizes do G20, é entrar em um terreno de tensão estrutural, ou seja, entre a urgência climática global e as desigualdades históricas que marcam o campo, especialmente nos países em desenvolvimento. Este debate não pode ser superficial, nem tecnocrático, ele precisa ser profundamente político, ético e territorializado.

As prerrogativas do G20 têm reforçado a necessidade de descarbonização das economias, com metas cada vez mais rigorosas de redução de emissões, no entanto, há um ponto crítico que precisa ser enfrentado sem retórica, pois bem, quem historicamente mais tem emitido carbono, não são as comunidades rurais periféricas, mas sim os grandes centros industriais e os modelos agroexportadores intensivos, mas ainda assim, são justamente os pequenos produtores, agricultores familiares e populações tradicionais que começam a sentir, de forma direta, os efeitos regulatórios dessas políticas.

A imposição de limites de carbono, quando descolada da realidade socioeconômica do campo, corre o risco de se transformar em mais um instrumento de exclusão, sem mecanismos robustos de compensação, financiamento climático acessível e transferência tecnológica, portanto, essas medidas podem sufocar economicamente comunidades que já operam no limite da sobrevivência. O resultado é perverso, pois penaliza-se quem menos contribuiu para o problema, enquanto os grandes emissores frequentemente encontram brechas para continuar operando sob uma lógica de “compensação de carbono” questionável.

Há ainda uma contradição evidente no modelo global, pois ao mesmo tempo em que se exige redução de emissões, mantém-se uma estrutura de mercado que pressiona o campo por produtividade, exportação e competitividade. Como exigir que comunidades rurais reduzam sua pegada de carbono sem garantir alternativas viáveis de produção sustentável, acesso a crédito verde, assistência técnica qualificada, e políticas públicas estruturantes?

Outro ponto sensível é o risco de “financeirização do carbono” nos territórios rurais, tendo em vista que a transformação da natureza em ativo de mercado, via créditos de carbono, pode gerar novas formas de concentração de renda e até de apropriação territorial. Grandes grupos econômicos passam a enxergar florestas, áreas agrícolas e territórios tradicionais como ativos financeiros, deslocando o protagonismo das comunidades locais e, em alguns casos, restringindo seu uso tradicional da terra.

Sustentabilidade rural, dentro dessa lógica, não pode ser reduzida a métricas de carbono. Ela precisa incorporar justiça social, soberania alimentar, valorização dos saberes tradicionais e autonomia produtiva. Essa compreensão nos diz que limites de carbono são necessários, mas precisam ser diferenciados, justos e acompanhados de políticas redistributivas concretas.

Se o G20 pretende, de fato, liderar uma transição ecológica global, precisa romper com a lógica homogênea e reconhecer que há múltiplos “campos” dentro do campo.

Afinal de contas, não existe sustentabilidade possível quando se ignora a desigualdade, e não existe justiça climática quando o ônus da transição recai, mais uma vez, sobre os ombros dos que historicamente foram marginalizados.

O verdadeiro desafio não é apenas reduzir carbono, é redefinir o modelo de desenvolvimento. E, nesse processo, as comunidades rurais não podem ser tratadas como problema, precisam ser reconhecidas como parte essencial da solução.

Mas esse debate não termina por aqui, pois ao tensionar o papel do G20 na agenda climática global, torna-se inevitável expor uma contradição de base, onde o mesmo bloco que se apresenta como liderança na mitigação dos desastres ambientais, é composto, majoritariamente, pelas economias que historicamente mais contribuíram para a intensificação das emissões e para a consolidação de um modelo produtivo ambientalmente predatório.

Essa assimetria não é apenas histórica, mas estrutural. O G20 opera dentro de uma lógica econômica ancorada na expansão contínua, na competitividade internacional e na centralidade do crescimento como indicador de sucesso, e é justamente esse paradigma que sustenta grande parte das pressões ambientais contemporâneas. Assim, quando o grupo propõe limites de carbono sem enfrentar de maneira incisiva os fundamentos desse modelo, o que se observa é uma tentativa de ajuste, e não de transformação.

Nesse contexto, até que ponto um fórum composto pelas principais potências econômicas globais possui condições reais de liderar uma transição ecológica que, em última instância, exigiria revisões profundas nos próprios mecanismos que sustentam seu protagonismo? A ausência de medidas mais contundentes sobre padrões de consumo, cadeias produtivas globais e concentração de riqueza indica que há limites políticos claros nessa condução. Além disso, há um deslocamento recorrente de responsabilidades nessa estória. Embora o discurso oficial reconheça a necessidade de uma “transição justa”, na prática, muitas das estratégias acabam transferindo encargos operacionais para países periféricos e comunidades rurais, especialmente por meio de exigências regulatórias, condicionantes de mercado e mecanismos de compensação de carbono, o que acaba gerando um cenário onde aqueles com menor capacidade de adaptação são chamados a cumprir metas que não refletem sua real contribuição para o problema.

Não se trata, portanto, de negar a importância de fóruns multilaterais como o G20, mas de reconhecer suas limitações intrínsecas. Sem uma revisão crítica dos próprios fundamentos econômicos que orientam suas decisões, há o risco de que a agenda climática permaneça capturada por interesses que priorizam a estabilidade do sistema vigente em detrimento de mudanças estruturais mais profundas.

Mas esse debate não termina por aqui, pois ao tensionar o papel do G20 na agenda climática global, torna-se inevitável expor uma contradição de base, onde o mesmo bloco que se apresenta como liderança na mitigação dos desastres ambientais, é composto, majoritariamente, pelas economias que historicamente mais contribuíram para a intensificação das emissões e para a consolidação de um modelo produtivo ambientalmente predatório.

Essa assimetria não é apenas histórica, mas estrutural. O G20 opera dentro de uma lógica econômica ancorada na expansão contínua, na competitividade internacional e na centralidade do crescimento como indicador de sucesso, e é justamente esse paradigma que sustenta grande parte das pressões ambientais contemporâneas. Assim, quando o grupo propõe limites de carbono sem enfrentar de maneira incisiva os fundamentos desse modelo, o que se observa é uma tentativa de ajuste, e não de transformação.

Nesse contexto, até que ponto um fórum composto pelas principais potências econômicas globais possui condições reais de liderar uma transição ecológica que, em última instância, exigiria revisões profundas nos próprios mecanismos que sustentam seu protagonismo? A ausência de medidas mais contundentes sobre padrões de consumo, cadeias produtivas globais e concentração de riqueza indica que há limites políticos claros nessa condução. Além disso, há um deslocamento recorrente de responsabilidades nessa estória. Embora o discurso oficial reconheça a necessidade de uma “transição justa”, na prática, muitas das estratégias acabam transferindo encargos operacionais para países periféricos e comunidades rurais, especialmente por meio de exigências regulatórias, condicionantes de mercado e mecanismos de compensação de carbono, o que acaba gerando um cenário onde aqueles com menor capacidade de adaptação são chamados a cumprir metas que não refletem sua real contribuição para o problema.

Não se trata, portanto, de negar a importância de fóruns multilaterais como o G20, mas de reconhecer suas limitações intrínsecas. Sem uma revisão crítica dos próprios fundamentos econômicos que orientam suas decisões, há o risco de que a agenda climática permaneça capturada por interesses que priorizam a estabilidade do sistema vigente em detrimento de mudanças estruturais mais profundas.

Sandro de Menezes Azevedo Coordenador Estadual MNLM/SE