No dia 1° de janeiro de 1959, teve fim a Revolução Cubana, após a fuga do ditador Fulgêncio Batista e a vitória das forças de libertação lideradas por Fidel Castro. Um ano depois, em 1960, os Estados Unidos impuseram o primeiro embargo ao país, proibindo todas as exportações para Cuba, exceto alimentos e medicamentos. Tal medida foi consequência de decisões do governo cubano, como a reforma agrária promovida na ilha e a nacionalização de refinarias de petróleo.

Desde então, a política dos EUA em relação a Cuba tem seguido essa linha, com momentos relativos de afrouxamento e de recrudescimento dos embargos. Independentemente de como se queira definir, colonialismo ou neocolonialismo, o padrão se mantém: acusações infundadas ao governo cubano de “desestabilizar a região” e de se aliar a adversários dos EUA, ignorando o princípio fundamental do Direito Internacional de autodeterminação dos povos. O propósito estadunidense não se modificou de 1960 até o presente: o controle de Cuba, no Mar do Caribe e na América de forma geral.

Nos últimos meses, vemos novamente os Estados Unidos recrudescerem os embargos. Em janeiro, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva ameaçando impor tarifas adicionais aos países que fornecem petróleo à ilha. Essa situação se somou à intervenção no mercado petrolífero venezuelano, fazendo com que Cuba deixasse de receber remessas da Venezuela.

“Não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba”

Declarou o presidente dos EUA em 11 de janeiro. O presidente cubano reagiu à ordem executiva, afirmando: “Sob um pretexto mentiroso e infundado, […] o presidente Trump pretende estrangular a economia cubana. […] Isso demonstra a natureza fascista, criminosa e genocida de uma camarilha que sequestrou os interesses do povo americano para obter ganhos puramente pessoais.”

No atual momento histórico, é difícil discordar do líder cubano. Em parte, isso explica os levantes dentro dos próprios Estados Unidos, como os protestos anti-ICE, contra a escalada das guerras no Oriente Médio e as intervenções em outros países. Abordarei esse ponto de forma mais completa em um texto futuro. Voltando a Cuba, a nova investida segue à risca a cartilha da Estratégia de Segurança Nacional, na qual as Américas do Sul e Central devem retornar ao jugo estadunidense.

O novo embaixador cubano no Brasil, Victor Cairo, em aula inaugural na Universidade de Brasília (UnB) no último dia 17 de março, afirmou que o país caribenho vive uma situação de “guerra”. Inclusive, as movimentações na ilha têm buscado reagir a uma possível agressão externa. Observando os eventos na Venezuela e as ações americanas no Oriente Médio, todas as precauções tornam-se necessárias.

Em meio a isso, o governo brasileiro prepara uma doação de aproximadamente 21 mil toneladas de mantimentos ao país caribenho, atendendo a um pedido de ajuda humanitária. A quantidade final e a data do envio ainda estão sendo discutidas. Contudo, o Brasil não envia combustível, temendo os efeitos das sanções. A decisão ocorre em um momento crítico para Cuba, que enfrenta sua pior crise energética em décadas, marcada por apagões constantes. Ao focar a ajuda em alimentos, o governo brasileiro busca o alívio imediato à população, evitando o campo sensível das commodities energéticas, onde o embargo norte-americano é mais rigoroso.

O petróleo é a base da condição material de vida em Cuba, sustentando desde a eletricidade e o transporte até a produção industrial e os hospitais. É exatamente aí que os Estados Unidos atacam, visando desestabilizar o governo e forçar uma mudança de regime. A intenção não é promover a democracia ou a liberdade, como repete a retórica oficial. Pelo contrário, o objetivo parece ser provocar o caos, instrumentalizando a fome e a escassez como ferramentas de pressão política. Sob essa lógica neocolonial, a América Latina e o Caribe voltam a ser relegados à condição de “quintal” dos Estados Unidos.