A definição de colonialismo foi utilizada pela primeira vez durante o Império Romano, no século I a.C. para descrever o estabelecimento de comunidades agrícolas fora do território de Roma. A definição geral do que é colonialismo não sofreu muita alteração desde então; ainda designa a política de exercer controle ou autoridade sobre outro território ocupado, por meio do poder militar e do controle administrativo da região. Naturalmente, não é preciso explicitar que isso geralmente ocorre contra a vontade dos habitantes locais, especialmente quando seus bens e direitos políticos são destituídos.
O colonialismo perdura até os dias atuais, com mudanças nos atores internacionais. Enquanto na Antiguidade existia Roma e sua expansão pela Europa, e na época dos impérios tínhamos os britânicos e sua expansão pelas Américas, hoje os Estados Unidos da América surgem como a expressão mais explícita do neocolonialismo. O processo transitou da ideia central de domínio exercido pela ocupação física das colônias para um modelo de dominação política e econômica. Nesse formato, o controle ocorre por meio da pressão econômica e da interferência política, criando uma exploração moderna onde o poder é exercido através da dependência e da influência nas decisões de outras nações.
O neocolonialismo é impulsionado, principalmente, pela exigência de novas fontes de matérias-primas, mercados consumidores para produtos industrializados e mão de obra barata. Uma diferença fundamental entre o colonialismo clássico e o neocolonialismo, ponto constitutivo do capitalismo, é a sua justificativa ideológica amparada pelo darwinismo social e pela noção de “missão civilizatória”. Tais conceitos buscavam legitimar a expansão ao apresentar os povos colonizados como inferiores e necessitados de “civilização”. Assim, constituiu-se a concepção de racialismo, fundamentada na premissa de que a espécie humana se divide naturalmente em raças e que estas correspondem a categorias biológicas ostensivamente distintas. Hoje, sabemos que essa divisão não existe no plano biológico, mas ela ainda encontra eco nas questões sociais.
Em sua obra Black Marxism (Marxismo Negro), Cedric J. Robinson argumenta que o próprio capitalismo é racial, emergindo de uma tradição intelectual europeia que sempre incorporou uma ideologia racial para justificar a exploração e a dominação. Nesse contexto, o racialismo não é uma derivação cultural ou uma simples superestrutura do capitalismo, mas sim o substrato cultural e a epistemologia base da racionalidade ocidental. Segundo o autor, o marxismo tradicional falha ao analisar o caráter racial do sistema porque ignora essa genealogia racial da modernidade ocidental, focando apenas na luta de classes clássica.
Definimos, até aqui, como o neocolonialismo capitalista funciona e como seus tentáculos operam no plano social e psicológico, classificando certos grupos como inferiores e outros como superiores, tanto física quanto intelectualmente. Essa justificativa serve como base para a continuidade das práticas de dominação. A “vanguarda intelectual” de tradição marxista, como descrito por Robinson, cai na mesma problemática de classificação da sociedade. Para critério de análise, concentrarei-me na experiência brasileira.
Sabidamente, a maior parte da população brasileira é negra, chegando a 56% segundo o último Censo do IBGE. Apesar disso, essa população ainda enfrenta profundas desigualdades estruturais, como o abismo salarial: mulheres negras ganham cerca de 38,9% a 53,7% menos que mulheres e homens brancos, respectivamente. No mercado de trabalho, representam a maioria dos desempregados e trabalhadores informais, ocupando apenas uma pequena fração dos cargos de gerência. Na questão da segurança pública, são as principais vítimas de homicídios, representando mais da metade das vítimas do país.
Outro ponto relevante para esta análise vem de estudos, como os da Agência Brasil e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que indicam que, embora tenha havido aumento no número de estudantes negros no mestrado e doutorado, eles ainda representam apenas cerca de 28,9% dos pós-graduandos. Esse desequilíbrio é atribuído ao racismo estrutural e à baixa visibilidade desses pesquisadores. Como Elstor Hanzen pontua no estudo da UFRGS:
“A baixa representatividade é reforçada por barreiras culturais, falta de capital cultural e a manutenção de um olhar eurocêntrico nos currículos. Pesquisadoras e pesquisadores negros relatam sobrecarga por serem frequentemente os únicos em seus espaços, tendo que lidar com debates raciais além de suas pesquisas, além de enfrentarem a invisibilidade de suas produções científicas.”
Com isso em mente, retornamos à análise central deste texto: a reprodução sistêmica, por parte de grupos políticos marxistas brasileiros, da mesma lógica colonialista ou neocolonialista. Esses grupos, que se autodenominam “vanguarda intelectual”, acabam por reproduzir o racialismo ao relegar aos pensadores negros apenas o tema do racismo, excluindo-os de discussões políticas mais abrangentes.
Nessa dinâmica, a figura da vanguarda intelectual assume o papel de tutor, enquanto a massa é mantida em uma posição de subalternidade. Prega-se um “retorno às bases”, mas ignoram-se os processos históricos, os desejos e as aspirações reais desses sujeitos. A retórica de “construir juntos” mascara uma barreira intransponível: uma elite de dirigentes que, embora fale em nome da base, jamais permite que ela ocupe espaços reais de decisão.
O problema central dessa estrutura partidária é a existência de uma intelectualidade que impede a ascensão de seus liderados. Na prática, opera-se de forma idêntica à lógica da direita: utiliza-se a força e a mobilização da base para ganhos próprios, garantindo que ela nunca saia do local de submissão em que se encontra.
Em suma, essa postura da vanguarda ignora a essência do Marxismo Negro: a compreensão de que o capitalismo é indissociável da opressão racial. Ao restringir o papel intelectual dos negros e tratar a base como mera força de manobra, essa elite reproduz a lógica do capitalismo racial que finge combater. A verdadeira práxis exige que se rompa com esse monopólio do saber, reconhecendo que não há revolução possível que não passe pela autonomia e pelo protagonismo político daqueles que sempre foram mantidos na subalternidade.