No dia 8 de junho de 1974, Estados Unidos e Arábia Saudita estabeleceram uma comissão mista para “Cooperação Econômica”. Oficialmente, o pacto previa a prestação de assistência técnica e militar ao Reino Saudita. Nas entrelinhas, seu verdadeiro objetivo era criar mecanismos para a reciclagem de petrodólares, garantindo aos EUA um elevado grau de influência sobre as demais nações do globo.

Neste ponto, é necessário esclarecer dois aspectos: primeiro, o que são petrodólares, segundo um breve contexto histórico anterior ao acordo. Petrodólares são as receitas em dólares americanos obtidas por países exportadores de petróleo com a venda de seu óleo, predominantemente precificado e transacionado em moeda norte-americana. Refere-se tanto ao fluxo financeiro gerado pela exportação quanto ao sistema econômico que consolidou o dólar como principal moeda de reserva global após o colapso do padrão-ouro.

Aqui entra o segundo aspecto: o fim do padrão-ouro. Em 15 de agosto de 1971, o presidente norte-americano Richard Nixon anunciou unilateralmente que o dólar não seria mais conversível em ouro, encerrando definitivamente o sistema de Bretton Woods, criado em 1944. Esse sistema vinculava o dólar ao ouro a uma taxa fixa de 35 dólares por onça, e as demais moedas ao dólar.

A crescente necessidade de financiar gastos governamentais, especialmente a Guerra do Vietnã, levou à emissão excessiva de dólares e à perda de confiança internacional nas reservas norte-americanas. Isso fez com que diversos países exigissem a troca de dólares por ouro, esgotando as reservas dos EUA e tornando o sistema insustentável. Assim, os Estados Unidos arrastaram o mundo para um regime de moeda fiduciária, cujo valor não era mais lastreado em um bem físico, mas na confiança no emissor e em sua política econômica. Esse novo regime foi formalizado em 1976 pelo Acordo de Jamaica, que estabeleceu o câmbio flutuante e declarou o ouro uma mera mercadoria, sem função de meio de pagamento internacional.

Em 1973, a desconfiança no dólar persistia, e os mercados pressionavam as moedas, levando a maioria dos países a abandonar as paridades fixas e adotar oficialmente o regime de câmbio flutuante, em que o valor das moedas é determinado pela oferta e demanda. No mesmo período, eclodiu a Guerra do Yom Kippur. Em retaliação ao apoio americano a Israel, as nações árabes produtoras de petróleo impuseram um embargo, quadruplicando o preço do barril. Isso gerou uma crise energética no Ocidente e uma inundação de petrodólares nos cofres dos países da OPEP.

Chegamos então ao acordo de 1974 entre EUA e Arábia Saudita, no qual o país saudita concordou em reinvestir sua receita de petróleo em títulos da dívida do governo americano. Isso permitiu aos EUA manter déficits orçamentários e comerciais gigantescos sem enfrentar grandes crises. Além disso, com o sistema financeiro global dependente do dólar, os EUA ganharam a capacidade de impor sanções, que se tornaram uma ferramenta crucial de sua política externa.

O Acordo de Jamaica, em 1976, selou o fim do padrão-ouro, com o Fundo Monetário Internacional (FMI) reconhecendo oficialmente as taxas de câmbio flutuantes e declarando o ouro como não mais sendo o fundamento do sistema monetário internacional. Isso desencadeou uma série de consequências: aumento da instabilidade nos mercados financeiros, inflação acelerada, explosão das dívidas públicas e privadas, e o fortalecimento dos bancos centrais, que passaram a ter maior poder para manipular as economias.

Desde então, os Estados Unidos exerceram hegemonia no comércio global de petróleo, com os barris sendo negociados em dólares. Essa dinâmica, no entanto, sofreu uma inflexão significativa em junho de 2024, quando o entendimento informal entre EUA e Arábia Saudita expirou e Riad optou por não o renovar. Esse marco alterou o panorama econômico mundial, sinalizando uma desdolarização progressiva.

Embora o dólar ainda domine a maioria das transações, outras moedas estão ganhando espaço, notadamente o yuan chinês. Essa mudança é impulsionada pela crescente influência econômica da China, principal parceiro comercial da Arábia Saudita, e pela necessidade do Reino de diversificar sua economia sob o plano Visão 2030, liderado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Como parte desse novo rumo, a Arábia Saudita passou a aceitar pagamentos em múltiplas moedas, incluindo yuan, e aderiu ao projeto mBridge, uma plataforma de moeda digital liderada pela China para pagamentos transfronteiriços.

Em 2026, o conflito entre os Estados Unidos e o Irã escalou a ponto de ameaçar o abastecimento global de petróleo, com o estratégico Estreito de Ormuz se tornando o epicentro de uma disputa que abalou o sistema internacional. O fechamento da passagem, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial, expôs a fragilidade de uma política externa baseada em sanções e ameaças, cujo poder de dissuasão entrou em colapso. Diante de um impasse sem saída e de uma crise econômica interna, os EUA recorreram à sua velha cartilha intervencionista, tentando retomar o controle por meio da força. No entanto, o motor da história não se detém: o mundo multipolar avança, lições são aprendidas, e a cada dia a hegemonia estadunidense se mostra mais distante do que um dia foi. O fim de um ciclo não é apenas possível, é inevitável.