Nenhum indivíduo é maior do que o movimento, do que os “companheiros”, os “camaradas” ou a base. Não podemos adotar a mesma lógica de movimentos personalistas, que tratam a população como massa de manobra, subestimando seu poder e sua inteligência.

Nesse sentido, busco trazer para a discussão o pensamento de Amílcar Cabral, em especial seu texto Centralismo Democrático, Crítica e Autocrítica. Foco, precisamente, no trecho sobre a autocrítica, no qual o autor aborda um aspecto relevante para o combate às vaidades e à mania de grandeza de certos quadros no seio dos movimentos, inclusive a pretensão de se autoafirmarem como elite intelectual.Segundo o autor: “Desenvolver em todos os militantes, responsáveis e combatentes, o espírito de autocrítica: a capacidade de cada um fazer uma análise concreta do seu próprio trabalho, de distinguir nele o que está bem do que está mal, de reconhecer os seus próprios erros e de descobrir as causas e as consequências desses erros. Fazer uma autocrítica não é apenas dizer ‘sim, reconheço a minha falta, o meu erro e peço perdão’, ficando logo pronto para cometer novas faltas, novos erros.”

Do meu ponto de vista pessoal, como militante de organização popular, presenciei inúmeras vezes esse comportamento: indivíduos que, ao fim da noite, declaram-se arrependidos, mas, ao primeiro raio de sol, cometem o mesmo erro, e, pior, apontam as falhas alheias como imperdoáveis. Retornemos, porém, a Cabral: “(Autocrítica) Não é fingir-se arrependido do mal que fez e ficar, no fundo, convencido de que os outros é que não o compreendem. Nem tampouco fazer autocrítica é fazer uma cerimônia para depois poder ficar com a consciência tranquila e continuar a cometer erros. Autocriticar-se não é pagar um responso ou uma bula, nem é fazer penitência. A autocrítica é um ato de franqueza, de coragem, de camaradagem e de consciência das nossas responsabilidades, uma prova da nossa vontade de cumprir e de cumprir bem, uma manifestação da nossa determinação de ser cada dia melhor e dar uma melhor contribuição para o progresso do nosso Partido.”

Companheiros, camaradas, colegas e irmãos de luta: podemos substituir a palavra “Partido” no texto de Cabral por “Movimento”, mas a essência permanece: “Uma autocrítica sincera não exige necessariamente uma absolvição; é um compromisso que fazemos com a nossa consciência para não cometermos mais erros; é aceitar as nossas responsabilidades diante dos outros e mobilizar todas as nossas capacidades para fazer mais e melhor.”

Em suma, a autocrítica marxista é uma ferramenta dialética contra o personalismo burguês, que trata a militância como propriedade privada. Combater a postura de “dono do movimento” é essencial para evitar que lideranças reproduzam a alienação e se sobreponham à base. No centralismo democrático, o indivíduo subordina-se à coletividade; sem isso, o movimento deixa de ser um instrumento de libertação para se tornar um latifúndio político. A autocrítica é, portanto, o que garante que a revolução siga como obra das massas, e não de vaidades isoladas.

“Autocriticar-se é reconstruir-se a si mesmo, para melhor servir.”