A chamada “economia verde” frequentemente se apresenta como solução civilizatória, mas, na prática, tem reproduzido antigas assimetrias sob novas roupagens, ou seja, cadeias produtivas “sustentáveis” continuam ancoradas em mão de obra mal remunerada, informalidade e ausência de proteção social, sobretudo em países periféricos. Trocando em miúdos, o que se vende como transição ecológica, muitas vezes, é apenas uma reconfiguração do mesmo modelo excludente, agora com certificação ambiental.

A desigualdade social, nesse cenário, não é um efeito colateral, é um elemento funcional e sistêmico, onde a lógica de maximização de lucros, aliada à financeirização da economia, impõe um padrão em que a dignidade do trabalhador é negociável. Enquanto isso, discursos de ESG (Environmental, Social and Governance) são utilizados como instrumentos de reputação, não necessariamente de transformação estrutural. A pergunta que precisa ser feita é incômoda, mas necessária, essa sustentabilidade da qual tanto nos referimos, é para quem?

No campo do trabalho, o século XXI testemunha a expansão de formas “flexíveis” de contratação que, sob o pretexto de modernização, fragilizam direitos historicamente conquistados. Plataformas digitais, terceirizações sucessivas e pejotização mascaram relações de subordinação, transferindo riscos ao trabalhador e esvaziando a responsabilidade das organizações. Trata-se, portanto, de uma reedição sofisticada da exploração, agora mediada por algoritmos e narrativas de autonomia.

Ao mesmo tempo, a crise climática escancara outra camada de desigualdade, quando na prática, são os trabalhadores mais vulneráveis, especialmente nas periferias urbanas e áreas rurais, os primeiros a sofrer os impactos de eventos extremos, insegurança alimentar e colapso de serviços essenciais. Falar em sustentabilidade sem enfrentar essas disparidades é, no mínimo, uma incoerência ética, e no máximo, uma estratégia deliberada de invisibilização.

A centralidade do trabalho na agenda da sustentabilidade precisa ser resgatada com rigor técnico e compromisso político, isso implica reconhecer que condições dignas de trabalho, saúde ocupacional, proteção social e equidade não são “pilares complementares”, mas fundamentos inegociáveis. Sem isso, qualquer avanço ambiental será superficial e, em última instância, insustentável.

É preciso romper com a lógica de que o desenvolvimento pode ser “equilibrado” mantendo intactas as estruturas que produzem exclusão, isto porque sustentabilidade não é compatível com desigualdade crônica, não há transição justa onde há exploração sistemática, e não existe futuro sustentável em um presente que naturaliza o adoecimento, o acidente e a invisibilidade de quem garante, com seu trabalho, toda a engrenagem econômica.

Se o século XXI pretende, de fato, ser marcado por uma nova consciência civilizatória, será necessário mais do que discursos alinhados a tendências globais, será preciso enfrentar interesses, rever modelos e, sobretudo, reposicionar a dignidade humana no centro das decisões, isto porque, no fim, a verdadeira sustentabilidade não se mede apenas em carbono evitado, mede-se necessariamente na vida que conseguimos preservar.